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A (necessária) arte do encontro

  Os encontros revelam-nos sempre o nosso lugar no tempo e na história, desde que estejamos disponíveis para o movimento. Vamos para o encontro como somos e vamos como estamos. Muitas vezes estamos de ego tão exacerbado e de alma tão conturbada que apenas nos transportamos para os encontros, como caixas fechadas e vociferando impressões, sem nada ouvir e receber de quem nos rodeia. A autorreferencialidade retira-nos a capacidade de nos vermos a nós mesmos, pois só o sermos vistos por um outro nos devolve – naquele tempo e lugar – o peso e a medida do nosso ser. A teia de relações e de encontros (e nós em movimento) recria-nos e saímos reinventados em cada permuta, descobrindo em nós luzes que levávamos e não víamos, e dando nós, com o nosso olhar, vigor e alento ao que parecia adormecido. No tempo, vamos descrevendo interiormente esse peregrinar que parece tão óbvio, de substituir sonhos por experiências e estas a dar-nos, de forma encapotada ou nem por isso, o tom outonal de quem ...

O difícil não vem de Deus

  Bem sabe o Criador do que somos feitos, criaturas tão repetitivas no erro e tão errantes nos passos que é certo que não se nos pode pedir senão o básico. Mas ainda que não fosse pela nossa inépcia, é evidente que Deus tem preferência pela simplicidade como se não quisesse contar com o nosso brilhantismo para transmitir a Sua luz. Neste mês de outubro que marca, para os cristãos católicos, a última das aparições aos pastorinhos de Fátima, voltamos a deter-nos nesse “padrão” de Deus, que facilmente esquecemos: os instrumentos de Deus são sempre tremendamente desajustados em relação aos resultados. Em plena I Grande Guerra, ficaram aquelas três pequeníssimas almas de 10, 9 e 7 anos, incumbidas de convencer o mundo de que a paz se alcançaria com o terço na mão. Não só a paz pessoal, mas a paz do mundo inteiro: 12 minutos de uma oração singela, o que basta para tocar o coração de Deus. Tocá-Lo, consolá-Lo e mudar muitos corações. Com a simplicidade de tal pedido, Deus (aqui por interm...

A ideia de Deus

  Não é certo que quem nasça numa família de forte tradição religiosa esteja em melhores condições do que qualquer outra pessoa para desenvolver a componente espiritual e uma relação com o divino. Pode acontecer exatamente o inverso. Crescer com uma ideia de Deus pode levar-nos a cristalizá-la nos ritos, hábitos ou procedimentos que, a dada altura, são desajustados ou necessariamente superficiais, pois mudamos ao longo da vida, deixando para trás o que já não serve. O desajustamento da vida espiritual com o crescimento nos adolescentes expõe a desproporção entre as várias dimensões do nosso ser, como os  jeans  que ficam curtos e sem margem para mais utilização. Do mesmo modo, o que levamos da fé herdada pode começar a ser um autocolante cada vez mais solto, inapropriado, infantil e descabido. Porque Deus não é uma ideia, Deus é Pessoa. E toda a experiência religiosa nasce do encontro entre duas pessoas, divina e humana, em que o homem é revelado a si mesmo na profundidad...

Eros e Ágape: Confundidos sobre o amor

  Eros , o amor passional, e  ágape , o amor sacrificial, continuam em batalha campal nas nossas vidas, como se não fosse possível juntá-los à mesma mesa, que é como quem diz, assumi-los por inteiro e integrá-los a ambos no leque dos bons amigos. A confusão radica nas dualidades que somos propensos a fazer, dividindo o que está destinado a ser junto e atribuindo dísticos de “bom” e “mau” a realidades que se limitam a ser. Passa-se isso com a divisão maniqueia de corpo e alma (que está na base da confusão sobre o amor), atribuindo ao corpo (e aos seus impulsos e sensações) todos os males do mundo e à alma (e aos seus suspiros etéreos) toda a pureza do mundo. Arredar o corpo ou a alma do amor (também do amor de amizade) é desumanizar, porque, na nossa travessia terrena, só somos sendo corpo e alma conjuntamente. O Deus cristão fez o favor de nos deixar exemplos marcantes de como se vive plenamente assumindo-se por inteiro: Jesus era chamado de “glutão e beberrão, amigo de public...

Desamores, dores e redenção

Habituamo-nos a tudo na vida, até a ter a alma em frangalhos, cheia de dores, pisaduras, feridas novas e velhas, algumas ainda com sangue a jorrar. Como são dores na alma, não sabemos o que fazer com elas e vamo-las mascarando com distrações várias, pecúlios, alegrias breves e ilusões de felicidade, numa superficialidade tão mais evidente quanto mais fundo é o abismo que levamos dentro. São deste género as ofensas imperdoáveis, os rancores entranhados, o orgulho desdenhoso e implacável, as memórias graníticas que erguem muralhas intransponíveis dentro de nós. Como são os desrespeitos, os ostracismos, os aviltamentos, as animalidades e todas as formas de abusos. Como são todos os desamores. Nesse negro isolado e frio, vamos mirrando. Passam os minutos, os dias, os meses e os anos e o acumulado das dores vai-nos transformando em seres que carregam tanto passado que se tornam incapazes de viver o presente sem ser por referência a uma dor qualquer que aí resolva despertar. Podemos chamar a...

Viver é Cristo, morrer é lucro

Tantos milénios soma a humanidade e a morte continua envolta numa densa névoa, como se não fosse um dos poucos factos de que podemos estar certos enquanto vivemos, para os outros e para nós próprios. Estranhamente, a morbidez escura e em surdina com que se vive o momento da morte e os que se lhe seguem alastra para todos os ambientes, incluindo os cristãos, como se não houvesse forma de contornar o politicamente correto negro de cara, veste e alma. Mas há, há forma de mostrar a alegria da ressurreição quando morre um cristão, aquele que pôs em Cristo a razão da sua esperança. A morte de alguém que amamos, para além da dor, pode-nos revelar a inopinada dimensão do dom. Damo-nos conta, por exemplo, que o ser tem a capacidade de tocar de forma diferente cada pessoa a que se doa. Trata-se de um brilho para além do que julgamos possuir, e cuja posse percebemos ser terrivelmente redutora, como um encapsulamento indevido de um ser maior. Sermos criados à imagem e semelhança de Deus, nesse ter...

Do tudo ao nada – o caminho necessário

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  Ao longo da sua itinerância, os crentes podem apresentar-se diante de Deus de duas formas: com as mãos cheias de méritos, esforços e conquistas ou com as mãos simplesmente vazias. Na génese das duas atitudes estão corações ávidos e comprometidos com Deus; o que varia é o modo e o modo pode fazer muita diferença. Penso que em geral todos começamos com grandes ímpetos de “acumulação”. No princípio da nossa vida de fé há muito a fazer: ganhar virtudes e destruir vícios, desfazer-nos do que nos afasta de Deus, sentir as asas da libertação das antigas escravidões, ganhar hábitos de oração e de vida interior etc., etc. Todo um programa intensivo de renovação que encetamos com enorme afinco, como aquele “primeiro amor” de que nos fala S. João no Apocalipse (Ap 2: 1-17). Esse ímpeto inicial corresponde às conversões do coração, quando a fé tradicional cai por terra e dá lugar à fé pessoal, em efusões de luz e de graça que nos dão a certeza do Céu. Ou apenas quando não víamos e passámos a...