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A Paz é uma conquista interior

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  Costumamos inaugurar os anos com desejos de paz, o primeiro dia do ano é o Dia Mundial da Paz. Falamos de paz como se ela dependesse apenas ou predominantemente de fatores externos. Raramente nos questionamos como é o ambiente de paz dentro de nós e como podemos ser construtores da paz, cada dia, cada hora, cada minuto que vivemos. Porque, na verdade, sem essa paz conquistada sobre nós mesmos jamais conseguiremos ser construtores de paz no mundo. “…abrir-nos à alteridade a que somos sempre convocados, com os outros, com a criação e com Deus.” Foto Daniel Mingook Kim/Unsplash A paz em nós depende apenas de nós e sem paz em nós não podemos dá-la a ninguém. Temos paz em nós ou corremos entre os conhecidos excessos: excesso de passado, que é depressão, excesso de presente, que é stress, e excesso de futuro, que é ansiedade? Os excessos de passado, presente ou futuro convocam todas as nossas potências para a autorreferencialidade, são uma força centrífuga que nos posiciona no centro d...

Entre a Terra e o Céu

  Todos os sistemas religiosos (e alguns filosóficos) apresentam a tensão entre o tempo presente (imperfeito) e o futuro (perfeito), revelando as fragilidades do tempo presente face à glória do tempo futuro. Nessa tensão, os fiéis (de todas as religiões) foram e são acusados de contemporizar com as injustiças do tempo presente, as suas limitações e opressões. No caso dos cristãos, é como se a cruz de Cristo, a par da virtude teologal da Esperança, exigisse a impassibilidade secretamente mortificada perante muitos sofrimentos pessoais e sociais. Nada mais errado. Ao encarnar, Cristo sobrenaturalizou toda a história, entrou nela e fez-nos entrar nela como seus irmãos divinizados. Toda a realidade clama a glória de Deus – as pedras da calçada, a natureza inteira e todas as criaturas. Depois da vinda de Cristo, o reino de Deus está efetivamente próximo. Não se trata apenas de uma proximidade temporal (no entendimento de que, perante a eternidade, o tempo é nada). Trata-se, sim, de uma ...

Reaprender a conjugar o “Nós” – A importância de sermos Povo

  As religiões do Livro partilham esse vasto e riquíssimo património comum: a memória do Povo de Deus, das suas lutas, êxodos, lamentos e vitórias. O registo da interação de Deus com o Seu povo ao longo de séculos é um legado não pequeno onde podemos reaprender a nossa relação com Deus, descentrando-nos de nós e alargando o coração, no tempo e no espaço. De facto, muito facilmente caímos nos particularismos do Eu e esquecemos que, perante Deus, somos essencialmente Povo. É como Povo que o próprio Deus gosta de nos olhar, apesar de conhecer o coração de cada um de nós melhor do que nós mesmos. Mas é como “nós” e não como “eu”, que nos apresenta a atitude correta perante Ele. Além disso, para os cristãos, essa é uma exigência que deriva do único modelo de oração deixado por Cristo: o Pai Nosso. No Pai Nosso, todas as preces são elaboradas no plural e nunca no singular. Quando pedimos o Reino, pedimos para todos, também para os inimigos, também para os indiferentes. Quando pedimos pão...

Em busca da fraternidade – O papel das religiões

  O papel positivo das religiões na construção de uma fraternidade universal está longe de ser consensual e podemos até descortinar bastantes factos que apoiam a tese oposta. Efetivamente, muitas atrocidades (e de vários tipos) foram ao longo dos séculos cometidas em nome das religiões e dos seus proclamados  deuses . Infelizmente, é um fenómeno transversal e os erros parecem coincidir. Aparentemente, a  verdade  que está na base de todos os sistemas religiosos, em vez de ser uma luz de aproximação e acolhimento transforma-se muitas vezes em muro intransponível ou em pedra de arremesso. Existem várias razões para isso, algumas das quais bastante óbvias: (1) Quem crê pode considerar-se facilmente mais do que os outros – a tentação da soberba; (2) Quem crê pode fechar-se comodamente no seu sistema de perfeição, desconsiderando tudo o resto – a tentação do isolamento; (3) Quem crê pode querer expandir a sua fé da forma errada: pela conquista ou pela supressão da diferen...

O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente

A questão do abuso de poder enquadra-se em todas as situações relacionais da vida humana em que, por ausência de limites e de mecanismos de controlo, se exerce e se é vítima de violência, aparentemente sem apelo para quem é violentado e sem consequências para quem pratica o abuso. Esta é uma verdade empírica que foi muito bem sintetizada no século XIX pelo católico Lord Acton: “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente.” A Igreja Católica, como é evidente em vários campos, está longe de estar imune a esta realidade. Pela sua própria natureza hierárquica e de tutela de uma verdade revelada, não pode importar facilmente os mecanismos comuns de limitação do poder. Entre eles, os mais clássicos são a rotatividade (eletiva) e a separação de poderes, que cria um balanceamento muito saudável entre quem legisla, quem executa e quem julga. Mesmo não podendo reproduzir integralmente, ao nível da sua cúpula, estes antídotos da desgraça de tantos, a Igreja Católica po...

Comunhão na mão e reverência pelo divino

Entre as múltiplas adaptações suscitadas dentro da Igreja Católica com a covid-19 está a forma de comungar, que passou a ser obrigatoriamente na mão e não na boca. Em traços gerais, a comunhão na mão foi a regra nos primeiros nove séculos de cristianismo, situação que se alterou pelas profanações que se começaram a verificar com alguma regularidade. A comunhão na boca passou nessa altura a ser a regra, até ao Concílio Vaticano II, que veio abrir de novo a possibilidade da comunhão na mão. Atualmente (fora da situação que estamos a viver), pode comungar-se das duas maneiras, na mão e na boca, com as devidas disposições: ter consciência de não estar em pecado mortal e perceber que se está a receber o Corpo de Cristo – o celebrante explicita isso mesmo e espera por um “ámen” antes de distribuir a sagrada comunhão. Considerar que a nossa boca tem mais dignidade do que as nossas mãos para tocar Cristo nega a verdade essencial da redenção, de cada pessoa inteira, de toda a humanidade. A comu...

Confinement or a return to spirituality

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Anyone that is accustomed to seeing the hand of God in everything and looking for everything in His face cannot be surprised by confinement or all its consequences. On the contrary, the spiritual view of events always starts, in the first place, from its full acceptance as a mystery. To grumble about events, to complain is equivalent to the attitude of the chosen people in the desert shouting at Moses and building golden calves. Whoever complains about events is not open to the gift, but is tied to idolatry that should be let go. We are reduced to essentials: a contingent space and the people closest to those close to us - the small family. If we add to this some deprivations and fears of uncertainty, we have gathered all the ingredients of the Old Testament exodus, those that exactly confirmed the chosen people and made them return to their Lord. For those who follow Christ, this is a necessary and inevitable path. The purity of faith depends on exactly that. Confinement, therefo...